Sábado passado fui almoçar fora com a família. Na hora que chegou a conta o mais velho, de 12 anos, quis ver quanto tinha dado. Ficou impressionado.
— Tudo isso só pra comer hambúrguer?
Pois é, ele achou o hambúrguer caro, e estava certo. Podem até argumentar que é o melhor do mundo (“problably not”, opinou um amigo texano, que estava conosco à mesa), mas certamente barato não é.

Mas vamos direto ao ponto, antes que o leitor pense que o tema aqui é o preço das refeições ou a qualidade dos sanduíches curitibanos. A questão é a educação financeira das crianças, um tema que está ganhando importância na cabeça dos pais. Natu­ral: quem não quer o melhor para seus filhos? Quem não quer que eles tenham uma vida de abundância, com o suprimento integral das suas necessidades?

Não ensino as crianças para que sejam sovinas, mas fico satisfeito ao perceber que elas desenvolveram capacidade de fazer comparações e criar referenciais próprios de valor, entre outras habilidades importantes para a gestão do dinheiro. Autonomia, essa é a palavra-chave para as finanças e para a vida. Afinal, seus filhos não estarão de mãos dadas com você por toda a vida.

Haverá um momento em que voarão sozinhos, e é bom que estejam equipados quando isso acontecer.

A angústia em relação à educação financeira é maior porque esse não é um forte dos adultos da geração atual. Eles não aprenderam a cuidar do dinheiro na infância – e quem poderia, naqueles tempos de inflação alta e planos econômicos? Essa angústia tem gerado respostas da sociedade. As escolas têm se preocupado com o assunto e começa a aparecer material didático dedicado ao assunto (estou dando minha contribuição nessa área, como autor dos conteúdos de educação financeira e educação para o consumo da Editora Aymará, destinados a escolas privadas).

Esse também é o ponto de partida do livro Pais inteligentes enriquecem seus filhos (editora Sex­­tante, 176 páginas, R$ 19,90), lançamento de Gustavo Cerbasi que está chegando às livrarias.

Confesso que não gosto muito do título, que remete a outros best-sellers do autor – penso que felicidade é diferente de riqueza e já vi pessoas ricas que têm uma péssima relação com o dinheiro.

Mas creio que Cerbasi acertou em cheio agora. A obra é prática quando trata de temas como cofrinhos, mesada e aquelas perguntas incisivas que só as crianças fazem (“Se a minha mãe gasta R$ 30 no cabeleireiro todas as semanas, por que eu não tenho o direito de ganhar um esmalte de apenas R$ 3?”). E é simples quando trata de questões pedagógicas, como a forma de abordar o assunto com a criançada. Mais: ele destaca as mudanças na sociedade brasileira e a forma como isso mudou a vida em família. “A nova classe média quer satisfazer os desejos de seus filhos, mas faz isso de forma não planejada e sem medir as consequências. Não há data certa para luxos nem para comemorações. Como o casal moderno trabalha, sobram poucos minutos por semana para a família (…). Resultado: no passado, as crianças sentiam mais falta de luxos em sua família; por sua vez, as crianças de hoje, rodeadas de luxo, sentem falta da família”, escreve.

Vale a pena dar uma olhada.
… ou investir para as crianças?

Frequentemente, essa preocupação com o futuro das crianças tem levado muitos pais a comprar produtos financeiros em nome delas – o mais co­­mum é o investimento em fundos de previdência.

Não sou contra essa prática, mas gostaria de fazer algumas observações sobre ela. Em primeiro lugar, ela pode conter em si um desvio de foco. Pais e mães precisam se preocupar com seu próprio sustento na época da velhice. Se não tiverem fontes de renda na época em que não puderem mais trabalhar, acabarão tendo de depender dos filhos, uma situação que pode ser desconfortável para os dois lados.

A segunda observação é que nem sempre dar dinheiro é a melhor forma de incentivar alguém. Em 23 anos de carreira no jornalismo, convivi com colegas de várias origens familiares e sociais. Fui percebendo que, de modo geral, jornalistas provenientes de famílias mais abastadas tinham quase sempre uma cultura geral bastante ampla – o que, certamente, ajuda na profissão. Mas os melhores profissionais que conheci foram os que experimentaram algum tipo de escassez na infância ou na juventude (não falo de pobreza extrema, mas de limitações, de ter de fazer escolhas em função da pura e simples falta de dinheiro).

Para esses, estudar e conquistar um lugar no mercado representou esforço e sacrifício maior, que resultou em disposição e responsabilidade. A perseverança que eles desenvolveram era uma característica marcante em sua atitude profissional. Da mesma forma, as conquistas financeiras precisam fazer parte do aprendizado do jovem. Se for possível ter a retaguarda da família para apoiar um projeto, por exemplo, melhor ainda.

Publicado em 22/11/2011
(Gazeta do Povo)

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